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O
Santo Graal
Curando a Ferida Sexual na Psique Ocidental
Roger
J. Woolger
Não
sou um mecanismo, um conjunto de peças.
E não é porque o mecanismo está funcionando
mal
que estou doente.
Estou doente por causa das feridas da alma, no profundo
eu emocional.
E as feridas da alma precisam de muito, muito tempo;
só o tempo pode ajudar,
e a paciência, e um certo arrependimento difícil,
longo,
um difícil arrependimento, percepção
do erro da vida,
e a nossa própria libertação da interminável
repetição do erro,
que a humanidade em geral prefere santificar.
D. H. Lawrence, A Cura
Naquele
ponto exato onde tua alma se torna carnal;
naquele exato ponto a cidade de Deus é criada,
sem início.
Dame Juliana of Norwich, Revelations of Divine
Love
O
Rei Pescador ferido nas coxas |
INTRODUÇÃO
A lenda da busca do Santo Graal encontra expressão
literária pela primeira vez, no fim do Século
XII, com a obra, do poeta Chretien de Troyes, cujo título
é Percival ou A História do Graal. Foi um
dos últimos romances palacianos tecidos em torno
da antiga Matiere de Bretagne (Questão da Grã-Bretanha),
extensa tradição oral que relata as explorações
do Rei Artur e dos Cavaleiros da Ordem da Távola
Redonda no reino mítico de Avalon.
O aparecimento da lenda do Graal e dos romances arturianos
nessa particular conjuntura da história não
foi mero acaso. A sociedade era universalmente feudal,
o que significa dizer que todos pertenciam à pirâmide
patriarcal composta pelo lorde, o cavaleiro e o vassalo.
A Igreja Cristã aprendeu na Era Romana a se adaptar
a essa estrutura de poder, adotando o modelo imperial
na sua hierarquia: Sumo Pontífice, arcebispos,
padres, monges, freiras. Com raras exceções
dinásticas, as mulheres (as freiras, por exemplo)
estavam na mais baixa escala e eram frequentemente consideradas
meros objetos de posse. E, como a Igreja era predominantemente
masculina e tecnicamente celibatária, um clima
de repressão sexual aguda prevalecia.
A consequência inevitável de tal repressão
foi uma prática extensiva da homossexualidade dentro
da Igreja e uma sucessão de episódios de
histeria coletiva que culminou com a posterior caça
às bruxas. Sex in Society, soberba obra de Gordon
Rattray Taylor, assim resume: “Não é
exagero dizer que a Europa Medieval relembrava um grande
manicômio”.
Quando a sociedade inteira está desequilibrada
pela unilateralização ou pela repressão,
torna-se previsível uma reação compensatória
do inconsciente coletivo. Se essa reação
vai-se manifestar sob a forma de uma revolução
na política ou em outra arena qualquer depende,
naturalmente, do grau de repressão. Na cultura
decididamente masculina da Idade Média, a reação
veio sob a forma da cultura romântica dos Trovadores
e de movimentos espirituais populares, como o dos Cátaros,
por exemplo. Ambos davam destaque ao feminino e ofereciam
alternativas tanto espirituais como leigas à ortodoxia
vigente. O aparecimento desses movimentos em uma cena
há muito dominada pelo poder masculino provocou
uma crise na consciência da época, comparável,
como Jung sugere em sua obra Aion, à crise da meia-idade
de indivíduos unilateralizados. Na verdade, a sociedade
como um todo experimentou quase que um colapso absoluto,
com sintomas neuróticos, sonhos visionários
e tentativas violentas de recuperar o controle com subseqüente
repressão.
No ensaio que segue, tentarei demonstrar que os mitos
e lendas dos Séculos XI e XII podem ser interpretados
como sonhos coletivos da crise medial da Era Cristã.
Para ilustrar, aplicaremos o método de C. G. Jung
de interpretação de sonhos à versão
de Chretien de Troyes da lenda do Graal. O ensaio será
fundamentado na importante obra da esposa de Jung, Emma
Jung, e na perspectiva de amor romântico estabelecida
por Denis de Rougemont, em seu O Amor e Ocidente, e por
Rattray Taylor, em sua obra acima citada.
Em conformidade com o método geral de Jung, a Parte
I da interpretação “estabelece o contexto”
da lenda em termos sócio-históricos. No
trabalho de sonhos, para estabelecer o contexto “sócio-histórico”,
pergunta-se o que um determinado sonho tem a ver com a
vida atual do sonhador e como o material simbólico
pode ser relevante para a situação existencial
no momento do sonho.
Com raras exceções, não se fazem
perguntas contextuais com relação a mitos.
A tendência é considerar, antes, seu significado
universal e espiritual. No presente trabalho, no entanto,
o núcleo do mito vai ser interpretado especificamente
para elucidar a psicopatologia da era na qual ele surgiu,
porque acredito assim poder lançar luz sobre problemas
extremamente difíceis com os quais ainda hoje pelejamos.
Do mesmo modo que The Glory of Hera, de Philip Slater,
demonstra com sucesso – na minha opinião,
pelo menos – como o mito e o drama grego refletem
as tensões patriarco-matriarcais da família
grega, assim também acredito que se pode demonstrar
que as lendas arturianas espelham crises recentes da identidade
masculina e a distorção e alienação
da parte feminina na psique do Ocidente.
Leitores que prefiram omitir a contextualização
histórica, que certamente é remota e não
tão envolvente, podem tranquilamente proceder diretamente
para a Parte II, onde lidamos com as principais imagens
simbólicas da lenda propriamente dita.
PARTE
I: O CONTEXTO HISTÓRICO DA LENDA DO GRAAL
O
Tumultuado Século XII: Uma Sociedade Aberta
O período em que Chretien escreveu foi um dos mais
complexos e dinâmicos da história medieval;
foi uma era que testemunhou importante inquietação
política, religiosa e social.
Em Aion, Jung a viu como um divisor de águas espiritual,
surgido a meio caminho entre a Era de Peixes e a Era Cristã
– assim denominadas pelo mito astrológico
da história. Embora a Espanha Moura abrangesse
também os árabes, a Primeira Cruzada, de
1096, re-despertou no Ocidente um rápido interesse
por Jerusalém.
Antes da Segunda Cruzada, de 1146, Jerusalém estava
de novo esquecida; e perpetuado estava o conflito entre
a Igreja Romana e os vários califados e reinos
islâmicos que se opunham ao recém-nascido
imperialismo religioso. Apesar dos elevados motivos religiosos
que inspiraram os primeiros cruzados, as Cruzadas logo
degeneraram em feudos de ambição pessoal
e ganância, marcados por atrocidades e massacres
de extrema crueldade. Mas, como ocorre com todas as guerras
de expansão contra um inimigo comum, as Cruzadas
trouxeram um novo espírito de unidade que beneficiou
a Cristandade e reabriu uma vasta via de acesso para o
Oriente.
Por essa via fluiu uma corrente regular de professores,
médicos, alquimistas, animadores e músicos,
que trouxeram o conhecimento grego e a ciência árabe,
que estavam esquecidos, de volta para o Ocidente, modificando
a face da Cristandade, que ainda lutava para sair do feudalismo
do período chamado Dark Ages. Os professores e
médicos fundaram as primeiras universidades da
Espanha e da Itália (o uso da beca preta da academia
é uma herança dos professores árabes);
os poucos alquimistas árabes propagaram as sementes
da ciência Ocidental; as canções de
amor lírico dos árabes inspiraram um tipo
de cantor nômade completamente novo e sofisticado,
o Trovador, um animador e satírico social cuja
voz sobreviveria nas várias gerações
seguintes de livres-pensadores jovens e aventureiros inebriados
diante do novo conhecimento e impacientes com a hipocrisia
da Igreja.
Os Trovadores não eram absolutamente os únicos
a se impacientarem com a enfadonha e muitas vezes corrupta
hierarquia da Igreja de Roma. Numerosos movimentos religiosos
nasceram espontaneamente no que chamamos de âmbito
popular – os Waldenses, os Patarenes, os Homens
Pobres de Lião, os Irmãos do Espírito
Livre, os Cátaros ou Albigenses – inspirados
por jovens líderes carismáticos como Peter
Waldo e Francisco de Assis.
A Europa dessa época era, como propôs Friedrich
Heer, “uma sociedade aberta” na qual se fomentavam
o livre experimento e a investigação nas
artes, nas ciências, na filosofia, pelo influxo
recente da cultura oriental e árabe. Esse fermento
cultural também estimulou uma revitalização
do interesse nas tradições nativas, como
a “Questão de Grã-Bretanha”
mencionada acima. Fora isso, surgiu no sul da França
uma civilização extraordinariamente rica
e multifacetada que foi chamada de Civilização
Provençal. Essa cultura contava com poetas próprios
– os Trovadores – sua própria epopéia,
sua própria língua – a langue d’oc
– e, acima de tudo, cortes vibrantes, onde se desenvolveram
as novas maneiras aristocráticas e os novos códigos
de honra do cavalheirismo, que posicionavam a dama, la
donna, no coração de seu universo social
e de seu universo espiritual. Das exageradas fantasias
dos Trovadores nasceu a courtezia, o culto ao amor cortês,
do qual o conceito (unicamente ocidental) de amor romântico
derivou.
Como resultado da maneira compartimentalizada como a história
é escrita – arte, padrões sociais,
filosofia, política, todos tratados isoladamente
– raramente considera-se que tenham sido hereges
somente as crenças religiosas da civilização
de Languedoc, Provença, e Poitou, porque também
sua própria cultura contestou todas as suposições
dos mil anos de Cristianismo.
O Mundo Medieval, de Friedrich Heer, é um dos raros
livros que tenta nos informar, na íntegra, sobre
as correntes e encadeamentos que alternadamente atuaram
no processo: Celtas, Mouros (considera-se islâmica
a cosmologia de Dante), Espanhóis, Orientais, Maniqueístas,
Gnósticos.
A Kabbala apareceu primeiramente no sul da França,
por intermédio das comunidades espanholas de judeus;
diz-se que as cartas do Tarô entraram na Europa
nesse período a partir de uma fonte Sufi; a dança
Morris inglesa era originalmente chamada de dança
“Mourisca” e veio a partir do casamento de
Eleanor da Aquitânia com Henrique II, da Inglaterra.
Numa época posterior relatou-se que os Cavaleiros
Templários teriam transmitido uma tradição
secreta pela Ordem Sufi Islamita localizada em Jerusalém
e estabelecido centros de iniciação nos
Pirineus. Sabemos, por exemplo, que Wolfram Von Eschenbach,
autor de Parzifal, foi um templário e, conforme
ele conta, baseou sua história em um certo Kyot,
ou Guyot, de Provença.
Os Trovadores
Os Trovadores provinham da aristocracia. Guillaume IX
(1071-1127) é normalmente tido em conta como o
primeiro Trovador. Ele foi Conde de Poitiers e Duque de
Aquitânia, avô da famosa Eleanor. Rebelde
na juventude, Guillaume nutria pouco respeito pela devassa
Igreja dos seus dias; suas canzones (canções)
eram repletas de sátiras e paródias do clero.
Sua visão juvenil da Dama está muito distante
dos estereótipos elevados dos Trovadores posteriores;
ele estava mais para um Henry Miller medieval, absolutamente
obsceno e licencioso, ecoando a turbulência da Carmina
Burana, uma coleção de potáveis canções
monásticas. Em uma de suas canções,
ele proclama: dirai vos de con, cals es as leis, o que
livremente traduzido significa: “Eu te direi tudo
sobre a boceta e suas leis”. Sua imagem da mulher
certamente amadurece, mas, em sua paixão selvagem,
elas continuam sendo criaturas de carne e sangue. Guillaume
estabeleceu o tom para o desenvolvimento do que podemos
chamar de contracultura do Século XII.
No tempo da carreira ascendente e tempestuosa de sua neta,
Eleanor de Aquitânia, o culto trovador já
tinha desenvolvido um código comum de humildade,
cortesia e devoção à dama, tornando-o
um culto refinado ao amor. Todo Trovador – nem todos
agora nascidos na nobreza – aspiravam ao amor de
uma dama mais elevada que ele em categoria e espírito.
Socialmente, a dama era induzida pela convenção
a rejeitá-lo para valorizar as “provas”
que a busca dele envolvia, mas, na realidade, havia muitas
uniões adúlteras secretas, como na famosa
história de Tristão e Isolda. Bertran de
Ventador é um bom exemplo da lealdade que o amor
cortês deveria demonstrar; ele idealizou uma paixão
sem esperança por Eleanor, sua patronesse –
sem esperança em função de sua posição.
Ainda assim ele jurou nunca alterar sua sina, que era
a de alternar esperança e desespero, por todos
os reinos da terra.
O
Culto à Dama
Não é demais ressaltar a excepcionalidade
dessa eflorescência do culto ao feminino, considerando-se
que, mesmo na nossa Era chamada Iluminada, é tarefa
sofrida e difícil para as mulheres resgatarem status
e dignidade espiritual semelhantes aos que obtiveram nessa
época. Se nós hoje deploramos a rigidez
dos patriarcas dos dias atuais, uma rápida vista
d’olhos à brutalidade dos lordes medievais
de primeira ordem, com seus cintos de castidade de ferro
e cruéis punições para o adultério,
nos ajudará a perceber que uma extraordinária
transformação ocorreu nas almas daquela
Era, promovida pelos Trovadores e por mulheres como Marie
de France e Eleanor de Aquitânia.
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Historicamente,
não há precedente próximo a essa
mudança, uma vez que as antigas mulheres romanas
eram estritamente mantidas em casa como sabujas parideiras,
e, mais tarde, os primeiros ascetas cristãos do
deserto, ferozmente renegando a carne, faziam o possível
para que as mulheres fossem vistas como enviadas de Satã.
Além do mais, Maria, a mãe de Deus, ainda
não tinha se tornado objeto de idolatria; ao contrário,
a comunidade cristã sublimava o feminino na anima
cultural da Mater Ecclesia, ou Madre Igreja, que era uma
abstração cultural e não um objeto
de devoção meditativa. Se há uma
origem histórica para o ressurgimento do feminino,
é muito mais provável que esteja relacionada
aos cultos pagãos da Grande Deusa – os mistérios
de Isis, de Diana de Eféso, e especialmente da
Sofia dos gnósticos – que provavelmente foram
levados para a Europa pelos contatos artísticos
de Trovadores como Peire Vidal, que tinham visitado o
Ocidente, e principalmente pelos Cátaros, que reverenciavam
uma das versões de Sofia e ordenavam não
só os homens mas também as mulheres ao sacerdócio.
E assim há como que um revigoramento da sombra
pagã do Cristianismo, particularmente no que pode
ser chamado de dimensão dionisíaca e venusiana:
o uso extático da arte, da música e do corpo
para atingir uma comunhão com a natureza divina
do corpo. A paixão dos Trovadores era terrena e
sensual; já não há mais nenhuma justificativa
para encarar as damas dos Trovadores com as cores dos
Pré-Rafaelitas, ou seja, como animas puramente
etéreas separadas do corpo; os Trovadores celebraram
a encarnação do feminino exatamente como
celebraram sua espiritualização. O que é
moderno no romans cortês de Chretien, Marie de France,
Wolfram, e Gottfried Von Strassburg é que, ao recontar
as vicissitudes por que passa o herói em sua tentativa
de salvar e conquistar sua dama, essas narrativas revestem-se
de uma forma medieval de psicologia profunda, tão
sofisticada na sua riqueza simbólica quanto as
tramas oníricas da anima e do animus identificadas
por Jung e seus seguidores. Friedrich Heer sintetiza esse
processo com notável discernimento em seu Mundo
Medieval:
Os
remédios prescritos para o homem que se perdeu mil
vezes no labirinto de suas paixões imaturas são:
mulher, “natureza”, mysterium. No romans, portanto,
uma mulher está sempre acessível para transformar
e enobrecer um homem. Por intermédio dessa relação
com a mulher, o homem ganha acesso a sua própria
alma, às camadas mais profundas do seu “coração”;
sua busca sensível por sua “rainha” o
faz mais sábio, mais sensível, mais consciencioso
como pessoa.
O Significado Psicológico do Cavalheirismo
Se considerarmos a terrível aspereza das cenas
com que se defrontavam os cruzados em seu encontro diário,
em batalha, com a morte, o estupro, a mutilação
e o massacre, é possível aquilatar a influência
civilizatória dos “cortejos de amor”
que vicejavam em Poitiers e Anjou, sob os auspícios
de Eleanor de Aquitânia, sobre a crueza da vida
militar. As cruéis artes de Marte fizeram sobressair,
em um movimento compensatório, as artes suaves
e sensuais de Vênus, uma education sentimentale
que influenciou a Idade Média e que também
traz consigo a herança literária e artística
que chamamos de romance, o tema eterno de que amor vincit
omnia – o amor, em suas muitas formas, conquista
tudo. Como C. S. Lewis disse, em sua famosa obra
A Alegoria do Amor:
Os
Trovadores efetuaram uma mudança que não deixou
nenhum recanto de nossa moral, de nossa imaginação
ou de nossa vida cotidiana intocado, e erigiram barreiras
intransponíveis entre nós e o passado clássico
ou o presente oriental. Comparado a essa revolução,
o Renascimento é apenas uma pequena onda na superfície.
Quanto
à Marte, eu sugeri em alguma outra de minhas obras
que um dos efeitos de mais longo alcance da adoção,
por parte do Imperador Constantino, do Cristianismo como
religião oficial do Império Romano foi que,
dali em diante, o Cristianismo do Ocidente tomou o caráter
assertivo e militar do arquétipo imperial e perdeu
completamente a função de identificar-se
com o oprimido e perseguido – e a isso chamei de
papel sacrifical Dionisíaco do Cristo crucificado.
Então, quando o martírio desapareceu da
Igreja dos primeiros dias, que foi então substituída
pela Igreja Militante, toda relação recíproca
entre perseguidor e perseguido reverteu-se – uma
dialética arquetipicamente simbolizada na díade
Marte-Dioniso.
É um exemplo coletivo da estratégia defensiva
conhecida na psicanálise como identificação
com o agressor. A conseqüência infeliz desse
movimento, tanto no âmbito pessoal como no âmbito
coletivo, é que há, então, uma necessidade
de encontrar uma vitima para contrabalançar o recém-encontrado
poder. As perseguições aos judeus vieram
de encomenda para a assim chamada Dark Ages, mas, com
certeza, a resposta mais satisfatória quem a proveu
foi o pagão sarraceno nas guerras contra o Islã,
uma religião igualmente Marciana e agressiva e
imperial sobre a qual os heróicos cruzados podiam
facilmente projetar suas sombras vorazes (um jogo satisfatório
que é ainda atrativo para a América Cristã
e o Irã muçulmano de hoje). Friedrich Heer
também vê essa tendência Marciana como
unicamente romana, quando assinala que, por contraste,
a Igreja Oriental não reconheceu nenhuma guerra
como “santa”; insistindo, ao contrário,
que “um Cristão deveria lutar com as armas
de Cristo; suas batalhas deveriam ser somente espirituais”.
O Ocidente, por outro lado, seguiu literalmente o curso
de Marte:
Em
1096 o hábito, agora com vários séculos
de idade, de usar meios políticos para subseqüentes
fins religiosos tinha se tornado tão bem estabelecido
no Ocidente que a metáfora paulina de lutar por Cristo
podia ser interpretada como um serviço militante
da nobreza.
Ao
contrário disso, parece claro para mim que os romances
corteses eram tentativas de sublimar, isto é, de
re-espiritualizar o papel do nobre, por meio de um rigoroso
código de honra cavalheiresco, para assim redimir
a metáfora paulina que se havia degenerado.
Heresia, Gnosticismo e Sexualidade
Se, como assinala Heer, não havia nada de novo
no militarismo excessivo da Igreja Romana ao lidar com
rivais externos, também nada havia em sua supressão
da ameaça interna de heresia cuja origem não
pudesse ser remontada aos primeiros séculos da
Era Cristã. Por exemplo, um historiador recente
do Cristianismo, ele mesmo Católico, abertamente
chamou Santo Agostinho (354-430) de “o primeiro
inquisidor”, por sua participação
na perseguição dos hereges Donatistas. Na
verdade, o estabelecimento da autoridade de uma igreja
centralizada em Roma caminhava de mãos dadas com
a supressão de escolas rivais de interpretação
dos ensinamentos de Cristo; eram igrejas alternativas
as quais os historiadores livremente englobam sob o rótulo
de Gnosticismo. Então, como ocorreu mil anos depois
– e ocorre ainda hoje –, uma das disputas
centrais com os gnósticos, depois que eles foram
elevados ao palco político, era sobre a posição
do principio feminino no ensinamento cristão e
o problema conexo de reconciliar os dois extremos conflitantes
da natureza humana: espiritualidade e sexualidade.
Como sabemos pela História, a Igreja Romana muito
cedo se tornou uma instituição predominantemente
patriarcal, e para ela a solução do problema
da sexualidade era: uma grande dose de negação
sob a forma de celibato oficial e o ostentoso ascetismo
dos Pais do Deserto. Muitos cristãos gnósticos,
por outro lado, continuavam a venerar a Deusa Mãe
como igual ao Deus Pai sob denominações
tais como Isis, Barbelo, ou Sofia (e mais tarde Maria).
Embora algumas facções gnósticas
tenham ficado tão ascéticas quanto a maioria
de suas primas ortodoxas, muitas adotaram uma prática
espiritual diferente com respeito ao sexo cujo significado
real foi enterrado sob séculos de ofuscação
puritana da história da Igreja. Uma releitura da
história da feitiçaria sintetiza assim suas
descobertas recentes:
Os
gnósticos eram ascetas de uma maneira difícil
de as pessoas modernas entenderem. Eles acreditavam em negar
este mundo e purificarem-se, mas às vezes praticavam
a indulgência sexual como um meio de purificação.
Ocasionalmente pareciam crer que a melhor maneira de transcender
“o mal” era experimentando-o. Eram sensíveis
ao ascetismo pagão, que, diferentemente do Cristianismo,
incluía tanto a auto-indulgência quanto a autonegação.
Por exemplo, os ritos antigos da Grande Mãe incluíam
orgias sexuais, mas que eram supervisionadas por padres
celibatários.
Hoje sabemos, graças a um grande número
de histórias bem-pesquisadas sobre o “submundo”
do Cristianismo, que esses rituais sexuais praticados
pelos primeiros gnósticos não desapareceram
simplesmente em função da perseguição.
Ao contrário, eles foram recolhidos aos padrões
do mundo Cristão ortodoxo e sobreviveram em facções
obscuras como a dos Paulicianos ou nos segredos cuidadosamente
guardados da tradição Hermética da
alquimia, de onde ao final foram absorvidos pelo Sufismo
esotérico. Um lugar muito importante onde as práticas
sexuais dos gnósticos parecem ter sobrevivido de
forma relativamente pacifica foi a Bulgária, em
grande parte porque ela não se converteu ao Cristianismo
até 864 A. D. Esse país balcânico
desde cedo teria abrigado uma versão da heresia
dualista Maniqueísta chamada Bogomilismo. Originalmente
os Bogomils eram estritamente puritanos, mas, sob a influência
de uma seita gnóstica chamada de os Massalianos,
revisaram suas crenças e práticas concernentes
ao corpo. Foi dos Massalianos que tomaram a idéia
de que, após um rígido período de
purificação, seria possível atingir
um estado onde a negação não seria
mais necessária, para que, assim, o adepto pudesse
envolver-se em qualquer ato sexual sem pecado.
A fusão das duas seitas assinaladas acima foi completada
antes do Século X, período durante o qual
o Bogomilismo também se identificou com a luta
dos servos búlgaros contra os despóticos
lordes cristãos. As crenças e práticas
dos Bogomils espalharam-se pelo norte da Itália
e depois para o sul da França e, de lá,
para todas as partes da Europa, onde os convertidos à
nova fé ficaram conhecidos como os Cátaros
ou Cathari (do grego katharoi, que significa “os
purificados”). O Catarismo, ou a Heresia Albigense,
como depois foi chamado (em função de sua
concentração em torno da cidade de Albi,
na França), iria tornar-se a mais difundida de
todas as heresias medievais – popular a ponto de
ameaçar a Igreja Católica em seu solo natal.
Os Cátaros se consideravam Cristãos e tinham
seus próprios sacramentos e estágios de
iniciação e treinamento espiritual semelhantes
aos do Yoga. Mas Jesus era para eles um Profeta não
divino e eles abominavam a Crucificação.
Mulheres eram bem respeitadas; eram ordenadas ao sacerdócio
e depois se tornaram politicamente influentes. Parece
provável, devido a sua disseminação
por todo o sul da França, particularmente Languedoc
e Provença, que os Cathari tenham exercido poderosa
influência sobre a doutrina cortês de iniciação
por meio de um proibido, mas transcendente, caso de amor,
cujo propósito não era a procriação,
mas a contemplação. O objetivo dos iniciados
mais avançados, os Perfecti, era transcender o
ciclo de nascimento e morte e, para esse fim, desencorajavam
o casamento, usando o sexo somente para propósitos
espirituais.
Fica claro, a partir dessa breve descrição,
o quanto a igreja Cátara deve ter sido antitética
ao espírito do Catolicismo. Não é,
então, totalmente surpreendente o fato de que,
em 1208, o Papa Inocêncio III tenha usado o assassinato
de um de seus núncios, nos arredores de Toulouse,
como pretexto para armar uma guerra completa, a qual mais
tarde foi chamada de Cruzada Albigense, cujo fim era erradicar
a civilização herege do sul da França.
Populações inteiras das cidades de Albi,
Béziers, Carcassonne e Foix foram brutalmente massacradas.
Depois de um amargo período de 20 anos da campanha
“ache e destrua”, a partir da qual a Igreja
formou sua eficiente polícia secreta, a Santa Inquisição,
estima-se que aproximadamente meio milhão de Cátaros
foi queimado, ou de outra maneira morto, por sua fé.
Quase nenhum traço dessa religião sobrevive
nos dias de hoje, mas o poder de sua fé pode ser
aferido pelos fatos: os registros da Inquisição
indicam que apenas quatro hereges renegaram sua fé
sob a ameaça de tortura e fogueira.
Os Cátaros podem muito bem ter ecoado o dito Donatista,
suprimido séculos antes por Agostinho, de que a
“a verdadeira Igreja é aquela que é
perseguida, não aquela que persegue”.
A Secreta Igreja do Amor
Antes
do ataque ofensivo dessa trágica guerra (considerada
por muitos como importante ponto de decisão na
história religiosa do Ocidente), a área
que abrange de Languedoc ao nordeste dos Pirineus já
havia se tornado também um centro espiritual importante
para ensinamentos esotéricos, os quais reduziram
as diferenças ortodoxas entre Cristianismo, Judaísmo
e Islamismo. Ali prosperou o aparecimento não somente
de professores de inspiração gnóstica,
como os Cátaros, mas também kabbalistas
judeus, mestres Sufi e possivelmente outros mais. Autoridades
na história do esoterismo afirmam que eles todos
tinham em mente um objetivo comum, qual seja, o de reinfundir
no Cristianismo uma espiritualidade mística, reinserindo
o principio feminino perdido no Ocidente. Pressentindo
que o Catarismo pudesse não sobreviver ao grande
poder de Roma, as antigas histórias celtas de Arthur
e seus cavalheiros parecem ter sido conscientemente utilizadas
para transmitir seus ensinamentos. Certamente, esses mitos
prestam ouvidos a uma tradição matriarcal
antiga que venerava a Deusa de muitas maneiras e tratava
as mulheres como iguais – serve como ilustração
o fato de que a deusa Ceridwen possuía um caldeirão
mágico que pode bem sugerir um protótipo
do Santo Graal.
Falando para uma camada profunda e possivelmente universal
da velha psique europeia, esses mitos serviram como veículo
perfeito para uma doutrina gnóstica e esotérica
da divindade da Mãe e para um sentido mais elevado
da busca cavalheiresca. Todas as ordens cavalheirescas
posteriores, especialmente os Cavaleiros Templários,
refletem esse secreto conhecimento de iniciação;
e o mesmo ocorre com uma outra corrente que se iniciara,
os Maçons, que construíram seus segredos
dentro da estrutura e sagrada geometria Pitagórica
das grandes catedrais góticas. A importância
disso tudo no sul da França é mencionada
nos escritos de Wolfram Von Eschenbach (ele mesmo associado
aos Templários), que coloca o castelo do Graal
nos Pirineus em sua obra posterior, Titurel. Segundo Heer,
é provável que Chretien de Troyes tenha
sido ele mesmo um Cátaro.
Na
maior parte dos casos, foram precisamente os Trovadores,
os minnesingers e os menestréis celtas que disseminaram
os romances de Arthur, Lancelot, Tristão, e Gawain,
retratando-os como elegantemente ousados nas cortes onde
predominava a courtezia, ou como mais espirituais para
o público cristão ortodoxo. Dos Séculos
XII a XIV, todas as versões escritas dessas histórias,
se reunidas, formariam um volume tão grande e tão
popular quanto a Bíblia. Certas imagens, como a
do jardim da Rosa, a fonte, a noiva abominável,
a donzela aflita e, principalmente, o Santo Graal reaparecem
nas mais diversas formas. O símbolo da rosa, por
exemplo, repete-se entre os Sufis, no Roman de la Rose,
no Paraíso de Dante, nas janelas da Catedral de
Chartres, e finalmente na mística Ordem Rosacruz.
Nesses fragmentos percebem-se remanescentes da difundida
Igreja do Amor, que tentou, como expressaram os trovadores,
reverter ROMA para AMOR, mas, como malograram, foram forçados
a tornarem-se secretos e a ocultarem seus ensinamentos
sob as alegorias de amor cortês.
No culto secreto indiano tântrico chamado o Maithuna,
a união sagrada da deusa com seu consorte divino
é ritualisticamente encenada por um par de jovens
iniciados, sendo que a mulher é selecionada por
sua beleza. Na obra Amor e Ocidente, Denis de Rougement
ponderou que o que remanesceu dessa prática mística
reside por trás de certos romances de amor cortês
e códigos dos Trovadores.
O Problema de Peixes
A
consciência do Ocidente cristão permanece
cindida, incapaz de resolver os opostos da Roma (de Marte)
e do Amor (de Vênus), apesar do surgimento de igrejas
e movimentos espirituais alternativos. Jung vê a
cisão como refletida no simbolismo astrológico
de Peixes que rege a Era Cristã. Ele diz que esta
é uma era na qual o problema dos opostos psíquicos
está profundamente acentuado. Jesus, como o conhecemos,
logo foi assimilado na mente mística com o símbolo
do Peixe, não só como um pescador de homens,
mas também como representante do arquétipo
dominante da era: os peixes gêmeos do signo de Peixes.
O primeiro peixe parece ser Cristo, mas então quem
ou o que é o segundo? Acompanhando o pensamento
de um grupo de autoridades patrísticas antigas,
incluindo o venerável Agostinho (um ex-Maniqueísta)
Jung conclui que o segundo peixe é o anti-Cristo,
o lado sombrio de Cristo, cujo espírito virá
dominar a segunda metade da Era de Peixes, quando a energia
de Cristo irá para o inconsciente. Jung vê
que “um abismo assustador abriu-se entre Cristo
e anti-Cristo no século XI”, o que visionários
como Joachim de Flora compensaram com imagens apocalípticas
de uma nova era do Espírito Santo. Mas, infelizmente,
o poder potencialmente revitalizante do espírito
dispersou-se nos movimentos coletivos que mencionamos
e a Igreja enrijou-se em repressão e dogmatismo:
“A era do anti-Cristo merece censura pelo fato de
que o espírito tornou-se não espiritual
e o arquétipo revitalizante gradualmente degenerou-se
em racionalismo, intelectualismo, e doutrinarismo, tudo
o que resultou na tragédia dos tempos modernos”.
O próprio Jung tentou demonstrar em seus estudos
de alquimia que, nessa disciplina arcana e em grande parte
subterrânea, a vida e os mistérios da transformação
espiritual foram, entretanto, mantidos vivos. E, se os
alquimistas eram os guardiões dos mistérios
perdidos do espírito, os romances corteses e cultos
do amor sobrevieram para manter vivos os mistérios
da natureza e a Grande Mãe. Ao mesmo tempo, os
Cátaros transmitiram o lumen naturae como sendo
a emanação feminina do Espírito Santo
(Sofia), pela imposição das mãos,
um ritual equivalente à transmissão de barakah
pelos Sufis ou do Shaktiput dos Yogis. Emma Jung esforçou-se
para demonstrar que os romances do Graal são meditações
coletivas sobre esse problema apresentado pelo inconsciente.
Em todas essas correntes encontramos uma convergência
de imagens de fontes celtas, orientais, cristãs
e alquímicas, todas buscando um novo símbolo
não apenas da transcendência espiritual,
mas também da Divina Imanência na criação.
PART II: UMA INTERPRETAÇÃO DA LENDA DO GRAL
Sinopse
da Lenda
O romance Percival (1185), de Chretien de Troyes, a primeira
de muitas versões da história dos Graals,
é de uma simplicidade e franqueza ausentes na versão
posterior, uma trama mais elaborada de cavalheirismo e
Cruzadas, que encontramos no Parzifal (1212) alemão,
de Wolfram von Eschenbach. Especialistas notaram empréstimos
óbvios das sagas galesas na primeira obra, mas
a lenda é essencialmente expressa na língua
franca cavalheiresca conhecida em todas as cortes, de
Monmouth a Provença e de lá a Beirute. Diferentemente
de Wolfram, não há nenhuma tentativa de
referência contemporânea; o cenário
é in illo tempore, o “era uma vez”
da convenção do mito e das lendas folclóricas,
em que a corte de Artur é tão remota no
tempo e espaço para o leitor medieval quanto Tróia
o era para os gregos atenienses da Era Clássica.
Embora o mundo seja cristão, nenhuma explicação
cristã do Graal é oferecida por Chretien
– a lenda de que o Graal é o cálice
da Última Ceia trazida para a Bretanha por José
de Arimatéia é um acréscimo posterior.
Portanto, o Graal aparece na primeira leitura com toda
a espontaneidade e mistério de uma poderosa imagem
onírica.
Os elementos essenciais da estória são
os seguintes: Um nobre, mas simples, jovem galês cresce
isolado no campo. Sua mãe, uma viúva triste,
o mantém afastado da corte, porque seu pai e seus
dois irmãos haviam morrido em combate quando o jovem
ainda era bebê. Percival nunca tinha visto um cavalheiro,
mas, quando finalmente vê, determina-se a ser um deles.
Sua mãe desmaia quando sabe de seu intento, mas permite
que vá, desde que prometa respeitar todas as donzelas,
freqüentar diariamente a igreja e nunca fazer perguntas.
Numa série de aventuras ingênuas, ele encontra
primeiro uma donzela, depois o esplêndido Cavalheiro
Vermelho, a quem mata para ficar com sua armadura. Nesse
feito é encorajado pelo Rei Artur, que acredita no
presságio de que um tolo simplório será
o maior dos cavaleiros.
Depois de acompanhar o treinamento de Lorde Gornamant nas
artes do combate e na filosofia cavalheiresca, o jovem segue
sozinho, novamente com o conselho de ser prudente e não
falar muito. Ele encontra Lady Blanchflor, a quem compromete
seus serviços na defesa das terras da senhora que
estão sitiadas. Triunfante na sua tarefa e amado
por Blanchflor, tem franca liberdade para pretender a sua
mão, mas decide, antes, tentar encontrar sua velha
mãe. Em sua busca, depara-se com o misterioso castelo
do Rei Pescador, que está gravemente ferido nas coxas.
O rei só consegue algum alívio para a dor
quando está pescando. Em uma marcha solene, Percival
vê uma lança coberta de sangue e uma taça
que brilha com uma luz fulgurante, mas, em atenção
aos conselhos de sua mãe e de seu professor, nada
pergunta sobre o rei. (Mais tarde uma jovem virgem contou-lhe
que ele poderia ter curado o rei, se lhe tivesse feito as
perguntas certas).
Na manhã seguinte, o rei, o castelo e todos seus
habitantes haviam desaparecido.
Percival participa de muitas aventuras, mas, gradualmente,
esquece tudo que lhe haviam ensinado, esquece sua mãe,
seu professor, Blanchflor e o Graal. Depois de muitos anos,
um ermitão lhe lembra de sua fé e de sua busca
original, insinuando que a perda do Graal teria a ver com
o fato de que abandonara sua mãe, que depois morrera.
O ermitão também lhe conta sobre o pai do
Rei Pescador, a quem o Graal é destinado e que mora
num aposento na parte interior do castelo alimentando-se
apenas de hóstias. Aqui a história (incompleta)
é interrompida.
Percival, o Herói
Iniciemos
pelo herói, Percival, cuja principal proeza na
história de Chretien é descobrir o Graal
e curar, ou seja, aliviar, o sofrimento do Rei Pescador.
Percival é a típica criança órfã
de pai, um arquétipo que comumente caracteriza
o herói, onde frequentemente se infere que o pai
verdadeiro é um homem de alta posição
social, ou até mesmo, em muitos mitos, um deus.
Essa falta de um pai tem muitas consequências no
plano imediato; o pai sempre estabelece limites, os limites
do mundo, que podem ser limites de dinheiro, poder ou
lei. A criança criada sem pai não conhece
as limitações imediatas (a mãe não
pode contê-lo e secretamente o “endeusa”)
e, portanto, pode carregar uma energia e uma intrepidez
que literalmente não conhecem fronteiras. Os feitos
de heróis crianças como Hércules
exibem essa superabundância de vida como poder físico;
ou, como no caso de Jesus ainda criança no templo,
há uma superabundância de sabedoria, sem
limites, não contaminada pelo cânone patriarcal.
Percival passa por um grande número de enfrentamentos
cavalheirescos e logo prova sua intrepidez física,
mas é reconhecido menos por sua bravura e mais
por sua simplicidade e por uma negligência, um insouciance,
particularmente em relação às mulheres.
Ele se esquece de sua mãe e se esquece de perguntar
sobre o Graal, e esse seu descuido é uma imagem
da tendência que nós todos temos de permitir
que o reconhecimento do fundamento feminino do nosso ser
caia no inconsciente.
No começo da história, Percival mora com
a mãe e é chamado “o filhinho da viúva”.
Pode não ser coincidência o fato de que Mani,
que deu origem ao Maniqueísmo, fora também
chamado
“o filho da viúva”, assim como também
o era Horus nos mistérios de Ísis. Tanto
o profeta Mani quanto o deus criança Horus são
arautos do embate com as forças do bem e do mal
a serviço da suprema deusa, a Virgem do Mundo.
Na história de Chretien, a mãe chora a morte
do pai de Percival “ferido nas coxas” (como
o Rei Pescador) e dos seus dois outros filhos, todos mortos
em combate. Seu refúgio na floresta é como
um regresso do arquétipo da mãe à
natureza, indefesa num mundo onde a força das armas
ou de Marte é toda poderosa.
Isso também significa que o nosso herói
está próximo da natureza, do self natural,
instintivo e espontâneo. E é essa parte de
sua ingenuidade que o equipa para a tarefa de buscar os
mistérios do feminino; ele não tem medo
dos poderes negros da deusa mãe que são
tão aterrorizantes para o filho do pai (é
Gawain, o filho do pai, simbolizado por sua busca pela
lança – o emblema fálico – quem
deve lidar com “a noiva abominável”
ou com a figura da “bruxa horrenda”, e não
Percival).
Na verdade, todos os encontros de Percival com as donzelas
na história são espontâneos, calorosos
e naturalmente sensuais. No seu encontro com a “donzela
triste”, a história conta que “ele
a beijou e suavemente a puxou para debaixo de suas cobertas,
e ela não resistiu a seus beijos – os quais
eu não acho que lhe foram desagradáveis.
Assim ficaram deitados aquela noite lado a lado, boca
a boca, até que amanhecesse”.
Deve-se ressaltar que, embora eles tenham se beijado e
se deitado juntos sob as cobertas, nada é dito
sobre fazer amor; o ato é uma expressão
natural de sua atração mútua; não
é nem puramente sensual nem, como nas outras versões,
uma negação deliberada do aspecto sensual.
Para Chretien, como para todos os Trovadores, a beleza
da mulher é o reflexo da beleza de Deus; o que
no Judaísmo místico é chamado de
Shekinah, a beleza da criação, que é
a Noiva de Deus. Essa concepção profunda
e abrangente perdeu-se no Cristianismo Ocidental, porque,
a partir dos Pais do Deserto, ensinou-se que os bons Cristãos
de ambos os sexos deveriam desprezar o corpo, mortificar
a carne e condená-la a austeridades extremas.
A doutrina de Shekinah não ficou perdida para o
Islamismo, entretanto. Apesar de uma superfície
de puritanismo, alimentava-se, contudo, entre os Sufis,
um erotismo místico de muitas facetas. Por um lado,
o Sufismo absorveu os ensinamentos não somente
gnósticos, mas também os neoplatônicos,
que enfatizavam a correspondência entre a beleza
transcendente e a imanente. O falecido Henry Corbin, um
dos grandes estudiosos ocidentais do Sufismo, escreve,
a partir dessa perspectiva, que “a beleza feminina
é a teofania por excelência”, numa
menção às palavras do Profeta: “Eu
vi Deus sob a mais bonita das formas”.
Corbin prossegue dizendo:
A
beleza é um atributo essencial de Deus e não
pode ser percebida, a não ser nas suas criaturas;
e, além disso, o amor pelo ser criado belo é
a única experiência que pode despertar um genuíno
amor a Deus. E é por isso que o próprio Deus
é a fonte e a realidade de Eros e proíbe sua
dupla dessacralização: dessacralização
por libertinagem, que é sua profanação;
e dessacralização por meio de um ascetismo
que é deliberado ou que, por outro lado, inerentemente
procura o sofrimento, o que acaba por equivaler a sua negação.
Então, de alguma forma, Corbin e os Sufis sugerem
que há um caminho do meio entre a Scylla da libertinagem
e a Caribde da autossuplício asceta. O caminho
do meio dos Sufis que os Trovadores, e depois Dante, claramente
adotaram era precisamente o caminho da contemplação
da beleza em sua encarnação feminina. Afirma-se
em Eric, outra obra de Chretien:
O
que posso dizer sobre a beleza dela? Na verdade, foi feita
para ser admirada: pois nela qualquer um pode ver a si próprio
como se em um espelho.
Admirar um belo rosto ou um belo corpo é ver refletido
nele o atributo divino da beleza transcendente. O olho
que vê torna-se o olho de Deus admirando sua criação.
E esse olhar, contemplando, é a ponte do encarnado
para a alma. Ao fixar nossa atenção, vamos
além do simples desejo, além até
da imaginação, pois não há
mais nada a imaginar na presença da beleza.
A disciplina espiritual implícita nisso foi soberbamente
expressa por Simone Weil:
O
belo é uma atração carnal que nos mantém
à distância e implica renúncia. E isso
inclui a renúncia daquilo que é o que há
de mais profundamente assentado: a imaginação.
Queremos comer todos os outros objetos de desejo. O belo
é aquilo que desejamos sem pretender comer. Nós
desejamos que seja... O belo é a presença
real de Deus na matéria...O encontro com o belo é
um sacramento.
No Yoga Tântrico indiano, aquela ramificação
secreta do Yoga que é dedicado à Grande
Deusa, há uma prática chamada Maithuna,
que, segundo Mircea Eliade, é onde “a união
sexual é transformada num ritual por meio do qual
o casal humano torna-se um casal divino”.
Uma jovem Yogini, escolhida por sua beleza, vive com um
jovem Yogi treinado; e, gradualmente, o casal, passando
por vários estágios juntos, prepara-se para
um intercurso ritualístico. Fitar um o outro, em
estado de excitação, é um estágio
previsto no processo destinado ao despertar místico.
Assim escreve Eliade:
Toda
mulher nua encarna prakrti (i.e. substância compreendida
como “material” feminino). Portanto, ela deve
ser olhada com a mesma adoração e o mesmo
desapego com que uma pessoa exercita uma reflexão
sobre o insondável segredo da natureza, sua ilimitada
capacidade de criar. A nudez ritualística da yogini
tem um valor místico intrínseco; se, na presença
da mulher nua, a pessoa não encontra em seu ser interior
mais profundo a mesma emoção aterrorizante
que sente diante da revelação do mistério
cósmico, não há rito, mas apenas um
ato mundano com todas as conseqüências conhecidas
(fortalecimento da corrente kármica etc)
Se essas práticas foram importadas do Oriente durante
as aberturas interativas dos Séculos XI e XII,
provavelmente nunca saberemos, devido à ameaça
que representavam para o ascetismo Cristão e para
uma cultura que renegava o corpo e a terra. Fortes indícios
da existência de tais práticas, ou pelo menos
do princípio da contemplação da beleza,
são encontrados em Chretien e nos Trovadores contemporâneos.
Apesar de todo vigor e júbilo ostentado nas cortes
de Anjou e Languedoc, a cultura do l’amour courtois
permaneceu restrita a uma minoria, destinada a prosperar,
mas apenas brevemente, deixando para trás somente
esses vestígios literários.
Impossível não notar a diferença
entre a atitude de Percival para com a donzela e o posterior
relevo dado à castidade e à pureza que encontramos
na Morte D’Arthur (1845), de Malory.
Aqui somente Sir Galahad, o mais puro cavaleiro, é
digno de buscar o Graal. Malory escreveu ao final de um
período que assistiu à intensa Cristianização
da lenda do Graal e a sua posterior espiritualização.
Chretien de Troyes escreveu em meio à cultura insolentemente
herege dos Cátaros que estava associada a Eleanor
de Aquitânia, neta de Guilleme IX, o primeiro Trovador
o qual citamos. Uma cultura que trouxe à vida mais
uma vez “o antigo prazer em Eros e a liberdade do
espírito” (Heer), mas, de igual modo, uma
cultura que foi, por essa mesma razão, execrada
por São Bernardo de Claraval que, como paradigma
da ortodoxia espiritual, chamava-a de “o demônio
do Sul”. É bom lembrar que, entre os grandes
sermões de São Bernardo, estão os
sobre o Cântico dos Cânticos, o mais sensual
dos documentos do Velho Testamento e que celebram o amor
de Salomão por sua noiva negra Sulamita. Em comum
com a tradição Patrística e também
Judaica, São Bernardo viu essa paixão como
uma descrição totalmente alegórica
da união da alma com Deus!
O Rei Pescador
Nesse ponto – minha imagem da apaixonada, mas sensual,
Eleanor de Aquitânia fitando, através do
abismo cultural do ardente Sudoeste, a face de um igualmente
apaixonado, mas místico, São Bernardo, na
frieza e imponência de sua Abadia de Cluny, no Nordeste
– nesse ponto, antes que a terrível Cruzada
Albigense que se precipitou em direção a
Rhone e suprimiu a fogo e espada “o demônio
do Sul”, para vitória eterna e vergonha eterna
dos líderes da Igreja, vamos nos voltar para o
que Wagner, Jung e T. S. Elliot consideraram como a imagem
mais intrigante do Conte Del Graal, de Chretien, aquela
do Rei Pescador ferido em meio a le pay gaste –
a terra devastada.
A
Terra Devastada
Em quase todas as versões
da lenda, como foi sintetizado por Jessie Weston em From
Ritual to Romance, a ferida do Rei Pescador, ou Rei Graal
(os quais às vezes são duas entidades) está
diretamente associada à seca prolongada que reduziu
o campo a um terreno inculto. A tarefa do herói,
ao fazer a pergunta certa, seria tanto curar o rei como
“liberar as águas”, para assim restaurar
a vida no reino.
Nas várias versões, três diferentes
perguntas são formuladas, dependendo do tipo de
texto que a acompanha. No texto de Chretien, que, acredita-se,
tenha sido o primeiro, a pergunta que Percival deve formular
é: ”A quem o Graal serve?”. Uma prosa
quase contemporânea de Percival faz o herói
perguntar: “O que é o Graal?”. No Parzifal,
de Wolfram, entretanto, muito mais tarde, a terra devastada
desaparece fazendo com que toda ênfase recaia sobre
a ferida do Rei Amfortas e, para der reine Thor, o tolo
puro, a pergunta é: “O que te dói,
meu tio?”. Iniciarei com a última, que se
refere à ferida do Rei Pescador, pois ela nos leva
diretamente ao cerne do nosso problema e, além,
para o mistério do Graal.
Na versão de Chretien, o pai de Percival foi ferido
por uma azagaia nas coxas, como o foi o Rei Pescador.
Em outras versões era o tio de Percival, mas neste
caso parece ser mesmo o pai, em função do
tipo de ferimento. Isso torna evidente que as terras do
Rei Pescador e as águas que Percival deve atravessar
são miticamente a Terra dos Mortos, ou as trevas.
Podemos dizer que o Rei Pescador é o princípio
paterno ferido – o enfraquecido, improdutivo e espiritualmente
abandonado mundo paterno do tempo de Chretien. Em virtude
da analogia com Cristo como Ichthys, o Pescador de Homens,
Emma Jung escreve:
O Rei Graal como tal é como se fosse a imagem arquetípica
do homem Cristão como ele é visto da perspectiva
do inconsciente. Visto assim, ele dissemina uma sombra extraordinária.
Ele está ferido nas coxas, o lugar da geratividade.
Se esse simbolismo não fosse por si claro; no Parzifal,
de Wolfram, ele se torna ainda mais explicito, pois o
Rei Graal, o Rei Amfortas, foi ferido nos testículos.
É esta, então, a imagem do homem Cristão
que emergiu nas fantasias inconscientes dos Trovadores
do Século XII: um Pescador Real rico, mas, do ponto
de vista sexual, horrivelmente ferido, governando sobre
uma terra que está desolada, infértil, improdutiva.
A terra, na verdade, reflete sua impotência; as
águas da vida secaram por dentro e por fora.
Cabe ao inocente tolo perguntar àquela parte da
nossa consciência Ocidental: Por que estamos sexualmente
mortos? Por que a nossa comunhão com a fecunda
terra não é mais frutífera? O que
há de podre ou de tão terrivelmente errado
com a sexualidade do homem Cristão ocidental?
Em outras versões da história, a única
coisa que pode aliviar o sofrimento do rei é a
hóstia da comunhão, que é depositada
no Graal (de cima para baixo) no Domingo de Páscoa.
Wolfram e Wagner assim elaboram o mistério do poder
curador da Eucaristia: é alívio e não
cura real. E eu creio que fracassa (como o fazem todas
as posteriores versões mais Cristãs e de
certo modo mais sentimentais da história) como
cura real, porque vem de cima; é uma solução
apenas transcendente ou espiritual. Os símbolos
ou sacramentos Cristãos não podem mais ajudar,
porque o Cristianismo do Século XII está
ele mesmo doente.
O antídoto não pode vir de cima, ele deve
vir de onde a ferida está: de baixo. E é
daí que vem o problema mais profundo do Cristianismo
cindido: abaixo está tudo que pertence ao diabo,
ao anti-Cristo. Eu proponho que seja essa a razão
pela qual o Rei Pescador queima seus dedos no salmão,
que é o que ocorre em uma das versões: ele
não é capaz de manusear o segundo peixe
da Era de Peixes. É muito quente. Queima suas mãos.
A sexualidade, especialmente a sexualidade sepultada,
é fogo impossível de controlar, pois é
fogo do inferno.
Mas há algo que está ainda mais abaixo,
que é o Graal, a fonte da vida, da geratividade,
do Eros primordial. O Graal pertence a tudo que é
macio, dócil, yin, no corpo, na terra, na Mãe:
pleno, rico, suave, gentil, e infinitamente abundante.
A sexualidade impotente é a degradação
final de Marte, o espírito imperialista impositivo.
Marte era originalmente para os romanos um deus “Dionisíaco”,
da fertilidade, cujo falo era a charrua que engravidava
Venus, a Mãe Terra, mas que também, com
sua espada, protegia a terra dos invasores. Devido à
insegurança e a ânsia por poder, primeiro
da Grécia colonial e depois da Roma Imperial, a
relha transformou-se permanentemente na espada, e a ígnea
semente da criação transformou-se em chamas
da destruição. Isso porque Marte, quando
é unicamente deus da guerra (como o Ares grego),
perde sua conexão com a terra e se torna o bruto
e voraz agressor sexual que não conhece limites,
a não ser que seja refreado pelas leis rigorosas
de uma autoridade maior. O Cristianismo romano freou essa
libido selvagem, a serviço primeiro de uma religião
imperial, depois da Inquisição e das Cruzadas,
e finalmente do espírito Conquistador em sua insaciável
ganância por mais conquistas ou “influências“
– que inicialmente buscou um ideal ascético
ou puritano que contrabalançasse seu medo de resvalar
para dentro da sombra pagã da libertinagem –
e sua perda da corporificação sensual de
Venus.
“O medo Cristão da perspectiva pagã
danificou toda consciência do Homem”. Assim
escreveu D. H. Lawrence na sua última obra, Apocalipse.
A ferida do Rei Pescador é a imagem medieval daquela
consciência danificada e da terrível alienação
da Mãe Terra que ela forjou.
Emma Jung cita uma versão diversa, mas também
dos primeiros anos, da lenda do Graal sobre “a destruição
do país de Logres”, um tipo de lembrança
de uma Idade Arturiana distante anterior à Queda.
Conforme segue, o poder terrível de Marte é
claramente responsável pela perda do Graal e desolação
da terra:
Uma
vez viviam naquela região, numa certa puis, i.e.
sepulturas ou grutas que abrigavam nascentes, jovens virgens
que costumavam revigorar, caçadores e peregrinos
cansados que por ali passavam, com comida e bebida. Bastava
ir a um desses puis e expressar seus desejos e imediatamente
uma linda donzela apareceria, carregando uma tigela dourada
contendo todo tipo de alimento (também um tipo de
graal). À primeira, se seguiria uma segunda jovem
portando uma alva toalha de mão e uma segunda tigela
contendo o que quer que o visitante desejasse. As donzelas
serviam todos os viajantes dessa maneira, até que
um dia um rei chamado Amagons raptou uma delas e roubou
sua tigela dourada. Seu povo seguiu seu mau exemplo e as
virgens nunca mais saíram da gruta para revigorar
peregrinos. Daquele tempo em diante, a região começou
a se tornar árida. As árvores perderam suas
folhas, a grama e as flores murcharam, e a água faltou
mais e mais.
“E daí em diante a corte do Pescador Rico que
fazia o solo reluzir com ouro e prata, com peles e coisas
preciosas, com alimentos de toda sorte, com falcões,
gaviões e gaviões pardais, não seria
mais vista. Naqueles dias quando a corte ainda podia ser
vista, havia riquezas e abundância por toda parte.
Mas agora tudo isso está perdido para a terra de
Logres
É
lugar-comum no trabalho junguiano de sonhos que, quando
uma imagem não pode ser entendida ou assimilada
pela consciência, ela retorne de formas ligeiramente
diferentes outra vez e outra vez, até que a consciência
esteja mais apta a receber o seu significado. Wagner batalhou
com a ferida de Amfortas em Parsifal, e T. S. Eliot explorou
a terra devastada como uma paisagem contemporânea
de sonhos, mas nenhum dos dois viu o problema como sexual.
Coube a D. H. Lawrence, que trabalhou mais próximo
dos problemas do Cristianismo e do paganismo, apresentar
uma versão totalmente renovada do arquétipo
nos seu último romance,
O Amante de Lady Chatterly. Na obra intencionalmente mal
interpretada de Lawrence, a razão pela qual Constance
Chatterly procura um amante é porque seu marido
está paralisado da cintura para baixo devido a
um ferimento sofrido na Grande Guerra. No caso do Rei
Pescador foi uma azagaia, no de Lord Chatterly foi um
fragmento de granada, mas para ambos a impotência
sexual é a mesma. Ambos são governantes
e membros de uma elite militar, simbolizando arquetipicamente
um dominante na consciência que está ferido
de morte e que não pode mais suster a cultura que
governa deixando tudo que é feminino descontente
e improfícuo.
Assim como com os Romanos, assim com os Britânicos.
A expansão incontida do imperialismo de Marte (sem
levar em conta aqui o “bom” verniz da instrução
e da civilização) leva inevitavelmente à
dispersão completa da libido da terra mãe
– uma total perda da conexão com o solo pátrio
causada por séculos de adulteração
que a mistura com culturas estrangeiras provoca, tudo
a serviço de uma idéia grandiosa, mas lunática,
chamada Império Britânico.
Do mesmíssimo modo com que os bárbaros inundaram
Roma, assim também hoje Londres está à
mercê da onda de imigrantes de todas as raças,
mal instruídos, desarraigados e desnorteados, provindos
das antigas colônias. É o retorno do reprimido:
é a sombra Dionisíaca pagã que volta
para reivindicar o centro cada vez mais decadente da metrópole
(literalmente: “Cidade Mãe”), aquela
espiritual terra devastada que foi tudo o que sobrou quando
o dardo imperialista foi de fato disparado.
Na
visão de Eliot:
O que é aquele som alto nos ares
Rumorejo dos lamentos maternais
O que são aquelas hordas aglomeradas
Sobre planícies infindáveis, tropeçando
na terra rachada
Rodeada apenas pelo horizonte estendido
O que é a cidade sobre as montanhas
Fendas e emendas e rupturas no ar violeta
Torres ruindo
Jerusalém Atenas Alexandria
Viena Londres
Irreal.
Mas talvez, como o romance de Lawrence sugere, a sombra
do Marte imperialista britânico não é
para ser encontrada projetada apenas na África,
na Jamaica, em Hong Kong ou na Índia (lembrando
Joseph Conrad, E. M. Forster, Somerset Maugham), mas deve
ser procurada na nossa casa, no camponês da terra
– esmagado, até ficar irreconhecível,
pelas sucessivas invasões dos Saxões, dos
Dinamarqueses, dos Vikings e dos Normandos. O camponês,
o paysan ou homem dos pays (= o campo), que se enveredou
pelas florestas; o homem selvagem da alegoria medieval.
Mellors, o homem da floresta, é, como proponho,
a verdadeira sombra da aristocracia impotente do Império
Britânico; ele corporifica o Dioniso fálico
perdido; o pagão Senhor das Bestas, é o
Cernunos Celta que se tornou o Diabo da tradição
da feitiçaria, poderosamente e totalmente enraizado
na sexualidade espontânea natural, como sendo aquele
que possui a força vital da criação.
É isso que busca Constance, a superculta anima
britânica, inicialmente toda mental, corpo quase
esquecido, um arquétipo da Atena superintelectual,
afastada da Mãe Terra, sua sexualidade mera máscara
e fantasia sentimental.
O que é o Graal?
Na
marcha solene, que Percival testemunha enquanto está
sentado na companhia do
Rei Pescador ferido, primeiro vem um escudeiro levando
uma lança branca que sangra na ponta. A maioria
dos críticos a veem com um símbolo fálico,
mas se perdem ao tentar explicar por que sangra. É
possível que seja um lembrete do ferimento do Rei
Pescador perpetrado por uma azagaia na batalha, mas é
igualmente possível que se refira à lança
que trespassou o flanco de Cristo na cruz. Se este for
o caso, corrobora o argumento de Emma Jung de que o Rei
Pescador é “a imagem arquetípica do
Cristo homem” que toma em si e para si a indômita
e voraz dominação de Marte desde os tempos
de Roma até o mundo moderno. A compensação
de Marte pelo sacrifício de Dioniso – Dioniso,
como Cristo, foi ritualmente morto e desmembrado e comido
nos mistérios – parece ser o tema arquetípico
central da crucificação, na qual Jesus foi
vítima do poder romano. A lança continuou
a sangrar nos tempos medievais, como com certeza ocorre
hoje, como testemunha de todas as vitimas da implacável
opressão militar que não presta nenhuma
atenção ao supremo mandamento de Cristo.
Depois da lança, aparecem dois candelabros conduzidos
por dois escudeiros, possivelmente um símbolo de
devoção e reverência ao que a isso
se seguiria; possivelmente uma referência judaica:
Uma
donzela entrou com dois escudeiros carregando entre suas
duas mãos um graal.
Ela era bonita, graciosa, esplendidamente vestida, e, à
medida que ela entrava com o graal em suas mãos,
surgiu uma luz tão brilhante que as velas perderam
seu brilho, do mesmo modo que as estrelas a perdem quando
a lua ou o sol nasce...O graal....era de um ouro polido;
e era incrustado de muitos tipos de pedras preciosas, das
mais ricas e caras que existiam na terra ou no mar.
A
etimologia da palavra “graal” remonta, convincentemente,
ao latim “gradale” ou “gradalis”,
que significa um prato ou uma tigela funda. Chegou ao
francês antigo como greal e ao provençal
como grazal e em catalunho como gresal, todos significando
uma taça, tigela ou vasilha de madeira, barro ou
metal. Escritores mais recentes fizeram trocadilhos com
o latim Gratus (agradável) e o francês gre
(desejo) por causa da capacidade que tinha de garantir
todos os desejos àqueles que o merecessem.
À
medida que a lenda caiu no esquecimento, no fim da Idade
Média. “graal” ficou associado ao “paraíso
na terra“ e aos deleites sensuais. Um cronista do
Século XV diz que
....historiadores são da opinião de que o
Cavaleiro do Cisne [Lohengrin] veio da montanha onde Vênus
reside no Graal.
Essa
elaboração contínua das associações
venusianas, claramente o principal núcleo pagão
e Oriental das convenções do amor cortês,
caminha lado a lado com as crescentes variações
Cristãs do Graal. Ele se torna o Cálice
da Última Ceia e, na minnelieder germânica,
a Virgem ela mesma é o Graal – claramente
o Vaso Sagrado que transporta o Senhor. Emma Jung observa
que Deus Ele mesmo é chamado de o Supremo Graal.
O
Cálice de Antioch (século XII) |
CONCLUSÃO:
A LUZ DO GRAAL
À
medida que temas cada vez mais ricos e refinados se entrelaçam
na grande trama da Busca, o Graal evolui e se torna um
dos símbolos mais extraordinários, integrativos
e transformativos da Cultura Ocidental. Coração
do romance Arturiano, ele é “o tesouro difícil
de obter”, suscitando elevadas sublimações
de Marte na disciplina cavalheiresca, centrando-as nessa
imagem infinitamente inspiradora do feminino eterno que
redime a mulher de sua pecha de “matéria
obscena” pouco melhor que a serpente do mal –
que é como a teologia contemporânea a vê.
E o mais impressionante é que, por afetar a improvável
reconciliação entre Maria e Vênus,
resgatou na imaginação popular o mistério
da sexualidade e da sacralidade do corpo da Mãe
de todos nós, que é também a terra.
É esta então a luz do Graal: a energia divina
que irrompe do Útero Divino, vax generatrix da
Mater, matéria, substância; aquela luz que
vem debaixo – a qual Paracelsus mais tarde chamou
de lumen naturae, para diferenciar de lumen dei.
Á medida que o conhecimento contemporâneo
de outras religiões se expande neste século,
pioneiros como Sir John Woodruffe, Richard Wilhelm, Jung
e Mircea Eliade têm demonstrado que há paralelos
entre esse vaso recipiente da luz interior e a energia
transformadora dos ensinamentos esotéricos da China,
do Tibete e da Índia conhecida como “luz
dourada”, “poder da serpente“, “energia
chi”, “tapas”. Vasos ou recipientes
dessa energia são também encontrados nos
centros sagrados do corpo macrocósmico, a terra,
especialmente em locais como Bogaya, Jerusalém,
Delphi, a Grande Pirâmide, Chartres, Stonehenge,
que equivalem, no corpo microcósmico, aos chakras.
No Yoga Tântrico, esses vasos interiores são
simbolizados pelo lótus; no Yoga Taoísta
chinês o centro do ventre é na realidade
visto como um pequeno forno.
Norman O. Brown escreveu que “o objetivo da psicanálise
– ainda não realizado, e ainda somente meio
consciente – é o retorno da nossa alma ao
corpo, o nosso retorno a nós mesmos, superando,
assim, o estado humano de auto-alienação”.
É esse estado de auto-alienação que
é a terra devastada. E, se pretendemos encontrar
o Graal que é a fonte da energia vital e o qual
pode resgatá-la, não podemos, como Percival,
negligenciar nosso ferimento ou nossa “mãe”
(mater), que é a “matéria” (o
material). As famosas palavras de Blake agora podem adquirir
novo significado:
Energia
é a única vida, e vem do corpo; a razão
é o limite ou a circunferência exterior da
energia.
A energia é o eterno deleite.
Se pretendermos encontrar a fonte dessa energia, devemos
primeiro ir para dentro, penetrar aquele terreno desconhecido
que podemos avistar na fantasia, no sonho e na meditação.
E nossa primeira percepção será de
áreas mortas, e do nosso Rei Graal interior, doente
e em sofrimento. Aquele cuja cabeça e coração
estão em desarmonia e aquele cuja genitália
foi maltratada, ignorada. Sentimento de dor, perda, culpa;
e necessidade de penitência. Se ao menos conseguíssemos
atravessar o medo e mergulhar para dentro de nós
mesmos, preparando-nos para resgatar a brandura e ternura
perdidas: as donzelas tristes e as noivas abomináveis
com as quais devemos casar dentro de nós mesmos.
Aí, sim, poderemos encontrar o Graal.
Mergulhemos mais profundamente em nosso corpo, na suavidade,
na docilidade, na receptividade, na confiança,
em direção ao receptáculo infinitamente
generoso, abrindo-nos para o deleite suave do corpo que
treme ao fluxo do Eros interior – belas imagens
despertando raízes físicas do nosso ser.
E essa energia, tratada com reverência e gentileza,
emergirá, circulando no caldeirão do estômago,
e fluirá, tal qual ouro liquido, para o coração
e para a morada da visão interior, que é
a cabeça.
Pois o templo do Graal, o qual as lendas posteriores dizem
que está no Oriente Leste, guardado por Prester
John, o templo do Graal não é nada mais
do que o corpo. Penetrar o interior para encontrar o Graal
é praticar a con-templ-ação –
estar “com o templo”. Os segredos desse templo
e o grande tesouro que ele contém estão
na verdade no Oriente, pois foram somente o yoga contemplativo
Tântrico e o yoga Taoista na Índia e na China
que os preservaram.
As histórias do Graal, então, principalmente
as primeiras, são de uma espécie de erotismo
místico, relíquias de um culto que sobrevive
somente em mitos e imagens, mas cuja luz continua a brilhar
e a nos iludir, podendo até conduzir-nos em nossas
buscas a um entendimento, mais profundo do que nunca,
do mistério da encarnação, para aquilo
que William Blake piedosamente chamou de A divina forma
humana.
Tristão
e Isolda |
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Traduzido por Thais Maurmo ©Roger J. Woolger (1983)
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Roger Woolger, Ph.D., terapeuta Junguiano e professor,
criou a Terapia chamada Deep Memory Process (Processo
de Memória Profunda). Tem-se dedicado ao estudo
de religiões e misticismo e atualmente lidera excursões
de peregrinação a localidades de poder na
França, dedicando particular atenção
ao trabalho de apresentar às pessoas a civilização
da Provença medieval.
Woolger
Training - Escritório Inglaterra:
Briarwood, Long Wittenham, Oxon OX14
4QW
Tel/Fax: 00
44 1 865 407996
woolger.uk@talk21.com
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