O
Retorno de Maria Madalena
Madalena como um novo modelo para a mulher
independente e apaixonada
Roger
J. Woolger
O
Código Da Vinci, de Dan Brown, logrou níveis
crescentes de sucesso internacional e impressionante audiência,
com sua história brilhantemente tecida em torno
de sociedades secretas, simbolismo esotérico e
lendas do Santo Graal. Na base, a noção,
antes herética, de que Maria Madalena fora consorte
e parceira sexual de Jesus, e de que sua descendência
se tornara uma linhagem sanguínea secreta estendendo-se
da Idade Média aos tempos modernos. ‘O maior
encobrimento da História da humanidade’ (pág.
236
– versão em português), – nas
palavras de Brown – intrigou Cristãos de
diversos matizes, assim como a milhares de agnósticos
que se comprazem em uma boa teoria conspiratória.
Uma
grande quantidade de livros e DVDs tem surgido, que variam
de refutações esnobes e eruditas Católicas
e Fundamentalistas a novos tratados que estabelecem conexões
esotéricas com os Templários e Cathars,
Leonardo, os mistérios de Ísis, Tantra e
outros. Conforme a edição da revista Newsweek
que teve Maria Madalena como sua reportagem de capa em
novembro de 2003,
o website magdalene.org recebe milhares de visualizações
por dia. Pelo mundo todo, grupos de discussão,
salas de chat e seminários debatem as controvérsias
de O Código Da Vinci, de Brown, as enunciações
obscuras do Evangelho Gnóstico de Maria (Madalena)
e todo tipo de intuições e fantasias sobre
quem essa mulher realmente foi, compilados a partir de
romances, literatura esotérica e, não menos
frequentemente, seus próprios sonhos.
Embora
a maior parte das polêmicas idéias históricas
sobre a relação de Jesus com Maria Madalena
e sobre o Sangreal como um código para a linhagem
sangüínea sagrada (ie Sang Real) tenha sido
proposta em 1982,
no extraordinariamente bem sucedido Holy Blood, Holy Grail,
(Santo Sangue, Santo Graal) de Messrs Baigent, Leigh e
Lincoln, só agora Cristãos de todos os matizes,
que desprezaram o primeiro livro, estão devorando
avidamente as patentes heresias de Brown – um importante
best-seller, mesmo na conservadora França Católica,
por exemplo.
A
Heroína Celebrada
O
que mudou desde 1982?
Por que de repente Madalena é a garota de capa
de uma revista que circula o mundo e a nova heroína
de teólogos católicos progressistas como
Karen King e Esther de Boer?
Uma
das razões para a popularidade de Madalena é
que atitudes feministas não estão mais restritas
a intelectuais da Igreja como King e de Boer, mas alcançam
também as mulheres comuns – e não
poucos homens. Assim, milhões de mulheres passaram
a questionar a misoginia e o puritanismo de uma Igreja
patriarcal que, há muito, tem marginalizado Madalena
ou a transformado em bode expiatório, em função
de sua flagrante sexualidade. Por exemplo, a crueldade
escandalosa das lavanderias de “Madalena”,
onde mulheres “perdidas” ou mães solteiras
eram aprisionadas ou abusadas, veio recentemente a público
num poderoso filme.
De
objeto de pia piedade, Madalena tem se transformado numa
heroína feminista celebrada, um novo modelo para
a mulher independente e apaixonada. Na verdade, as perspectivas
históricas estão sendo revistas, pois como
escreve Esther de Boer: “Descobrimos que, no curso
da história, Maria Madalena sempre desfrutou de
grande popularidade, mas o interesse estava muito mais
em sua sexualidade do que em seus testemunhos... [Ela]
atravessou a história, acima de tudo, como uma
mulher atraente e muito pecadora, que, graças a
Jesus, foi convertida e arrependeu-se”. Embora historiadores
modernos da Igreja encarem o rótulo de “prostituta
arrependida” como uma tática difamatória
e uma interpretação distorcida dos Evangelhos,
eles reconhecem o poder de suas imagens na base da consciência
cristã. Antes do início do Século
XIX, à medida que artistas independentes ficavam
mais arrojados, pinturas de mulheres mundanas e sensuais
com flamejantes cabelos vermelhos e corpos voluptuosos
começaram a aparecer. São elas Madalenas,
apaixonadamente devotadas a seus mestres, mas cujo Eros
manifesto foi com fino gosto sublimado, tomando uma igualmente
apaixonada feição de devoção
espiritual.
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A
Dissociação Madona/Prostituta
No
entanto, para os puritanos e patriarcas que dominaram
o Cristianismo, essa “mulher escarlate”, que
esteve tão perto do Salvador, é sempre motivo
de vergonha e constrangimento. Resta ainda o fato de que
os Padres da Igreja Cristã antiga ficavam profunda
e patologicamente perturbados pela sexualidade das mulheres.
Para eles, sexo era o mais aterrador dos pecados, resultante
direto da transgressão de Eva no Jardim do Éden.
Justamente a partir dessa paranóia em relação
à carne, surgiu o mito doutrinário de Maria
a Mãe milagrosamente casta e virgem. Pelo poder
do Nascimento Virginal e de uma Igreja de sacerdotes celibatários
e freiras virgens, esperavam reverter o pecado original
de Eva e fugir das tentações do Demônio
no mundo altamente licencioso da Roma Antiga, com seus
cultos ubíquos, eróticos e orgiásticos.
“Na raiz da obsessão dos Padres com a virgindade
de Maria”, escreve Marina Warner em Alone of All
her Sex, “estava a definição dos Padres
sobre o que era o mal: a sexualidade representava não
somente o mais grave dos perigos, mas também a
imperfeição fatal. E viam a virgindade como
seu antagonista e conquistador”.
O
resultado tem sido uma renitente ambivalência em
relação a todo feminino conectado com a
fé Cristã, uma obsessão com a transgressão
sexual e uma misoginia nas Igrejas, as quais não
se cansam de denegrir, diminuir e desempoderar as mulheres.
O medo que os Padres sentiam das mulheres deixou uma profunda
ferida arquetípica – o clichê madona
x prostituta – que ainda hoje assombra a psique
ocidental. Apesar da influência iluminadora de Freud
e Kinsey, da liberação sexual e da ordenação
de mulheres, essa ferida está longe de ser curada.
Para
um observador de padrões da história religiosa,
a re-emergência e popularidade da figura de Madalena,
com certeza, representa pelo menos uma compensação
saudável para a condição atual da
Igreja Católica e sua atitude medieval em relação
ao sexo e às mulheres tristemente simbolizada no
combalido Pontífice João Paulo II. Suas
opiniões sobre contracepção, mulheres
e sexualidade são tão reacionárias
que milhares de fiéis estão abandonando
a Igreja. Na Inglaterra, dos 15
milhões de Católicos descendentes de famílias
irlandesas, somente 4
milhões mantêm a fé, e, desses, somente
1
milhão vai à missa – metade dos números
computados em 1960. Nos Estados Unidos, a quarta maior
população católica do mundo, casamentos
de Católicos celebrados diante de um padre foram
reduzidos à metade desde 1960.
Esses dados são de John Cornwall, autor da recente
biografia crítica The Pope in Winter (O Pontífice
no Inverno): Cornwall atribui boa parte do declínio
da Igreja à recusa do Papa em sancionar o controle
da natalidade, que ele considera um mal irremediável
mesmo para vitimas de AIDS, e em enfrentar os horrores
da pedofilia – 11.000
menores molestados por padres Católicos nos Estados
Unidos entre 1950
e 2002;
certamente um grave sintoma das grandes falhas que há
muito existe na Igreja. Cornwall assim escreve sobre a
atitude do Papa em relação às mulheres:
“João Paulo insistia que a cama matrimonial
de uma mulher católica era um lugar de provação
e sofrimento, como a cruz de Jesus Cristo. Em todos os
momentos de sua vida ele identificou a maternidade com
auto-sacrifício e morte”. Além disso,
milhões de mulheres divorciadas, assim como as
que fazem uso de anticoncepcional, tecnicamente vivem
em pecado, segundo o Papa.
 |
O
Surgimento do Feminino Divino
Como
uma reação a tudo isso, há por toda
parte uma enorme ânsia pelo feminino divino, agora
invadindo a sociedade ocidental e em vias de varrer de
vez e para sempre os fundamentos patriarcais patológicos
da Igreja Cristã. Mulheres de todo o mundo, com
justeza, anseiam por lhes ver conferida sua verdadeira
dignidade como seres apaixonados e criativos, iguais aos
homens e não submetidas a eles. E a imagem, que
como Afrodite surge da espuma do mar, não é
outra senão aquela de Maria Madalena, a Deusa perdida
do Cristianismo em suas diversas formas.
“A
velha ordem muda, dando lugar ao novo / E Deus se satisfaz
de várias formas / A menos que um bom costume corrompa
o mundo”, escreveu Tennyson em Idílios do
Rei.
Assim,
como uma reação à decadência
sexual e estreiteza espiritual de tantas igrejas Cristãs,
é para Maria Madalena, até então
tão marginalizada e mal-representada na história
da Igreja, que muitos estão se voltando, imaginação
despertada por uma história de suspense e conspiração.
Graças a muitas informações genuinamente
ilustradas que Dan Brown coletou (ao lado de outras provenientes
de pura e algumas vezes ultrajante especulação),
a figura poderosa dessa mulher provocante está
outra vez tornando-se viva na imaginação
do nosso tempo.
Os
textos Gnósticos recentemente descobertos The Nag
Hammadi Library (A Biblioteca de Nag Hammadi) deixam mais
claro do que nunca que Maria Madalena deve ter tido um
papel proeminente, no círculo dos primeiros apóstolos,
como a principal confidente de Jesus, chamada de seu koinomos,
palavra grega que tecnicamente significa ‘consorte’
ou ‘companheira’, sugerindo uma relação
sexual. E, da mesma forma que no rejeitado texto Gnóstico
Pistis Sophia, ela se destaca como a principal intérprete
da revelação de Jesus do cosmos da luz,
‘aquela que entendeu o Todo’. Aqui, como em
outros casos, na figura de Santa Sofia – o feminino
transcendente de muitos sistemas Gnósticos –
ela repercute o papel sagrado da Sabedoria no Velho Testamento.
 |
Numa
passagem muito citada do Evangelho de Felipe (Gnóstico),
sua intimidade com Jesus é revelada como segue:
E a companhia de Maria Madalena a quem [Jesus] amava
mais que [todos] os discípulos, [e ele] costumava
beijá-la frequentemente [na boca]. Os outros discípulos....disseram
a Jesus, ‘Por que você a ama mais que a todos
nós?’ O salvador respondeu: ‘Por que
eu não os amo como a ela? Quando um homem cego
e um homem que vê estão ambos juntos no escuro,
eles não são diferentes um do outro. Quando
a luz chega, então ele que vê verá
a luz, e ele que é cego permanecerá no escuro’.
Grande é o mistério do casamento! Pois que
sem ele, o mundo não existiria.
Identidade
Confusa
Talvez
fosse inevitável que os ensinamentos dos Gnósticos
tivessem que ser rapidamente excluídos como heréticos
pelos Padres da Igreja, em favor de um cânon que
maximizasse o status da Virgem Maria (apesar do fato de
que ela raramente seja mencionada nos quatro Evangelhos)
e minimizasse o papel de Madalena, principal testemunha
da Ressurreição, e também o papel
da mulher em geral na Igreja. Como nos lembra Susan Haskins
em sua investigação admiravelmente ampla
sobre as imagens mutáveis de Maria Madalena ao
longo dos séculos, a pecha ‘prostituta penitente’
provém de uma confusão na identidade de
Madalena, aquela que Jesus exorciza dos sete demônios,
com uma mulher sem nome, a pecadora que unta os pés
de Jesus com óleo de uma jarra de alabastro (nunca
nos foi dito qual era o seu ‘pecado’; como
era de se esperar, os Padres supuseram que fosse sexual).
Uma outra Maria, Maria de Betânia, irmã de
Lázaro, funde-se na composição de
imagens de Madalena que derivou dos quatro evangelhos
canônicos. Finalmente foi transformada em dogma
pelo Papa Gregório do Século VI.
Ao
tornar Madalena, uma mulher tão intima de Jesus,
na pecadora preeminente, os Padres acabaram por estigmatizá-la,
chamando-a, por associação, de Segunda Eva,
‘o portal do Demônio’ (Tertualiano).
Os Padres da Igreja que criaram essa imagem composta difamatória
foram os mesmos que insistiram renitentemente no celibato
dos sacerdotes (para proteger os sacramentos da contaminação
de mulheres em período de menstruação).
Por outro lado, a Igreja Ortodoxa, a qual insiste que
sacerdotes devam casar-se, do mesmo modo que os rabinos
judeus se casam, é a que tem sempre defendido Dias
Sagrados independentes para três mulheres diferentes:
Maria Madalena, Maria de Betânia e a Cortesã
Penitente (ou pecadora).
Hoje podemos ver como, ao excluir as mulheres, antigos
fanáticos como Orígenes, Agostinho, João
Crisóstomos e Jerônimo, em seu pavor da sexualidade,
criaram uma cisão psíquica infeliz na alma
ocidental. Em um estudo sobre o arquétipo da Afrodite
ferida, no livro The Goddess Within
(A Deusa Interior), eu comentei ‘Ao longo dos séculos,
uma série lúgubre de equacionamentos foi-se
estabelecendo na mente dos Cristãos: Mulher = Terra
= Sujeira = Sexo = Pecado. A queda do homem deveu-se a
Eva, e a Igreja nunca deixou de advertir os homens de
que é a mulher que irá levá-los ao
inferno...’ (p. 125, versão em português).
Reagindo
aos evidentes excessos da religião romana decadente,
com suas orgias sagradas e remanescentes do templo ‘prostituição’
(uma denominação imprópria) que repercutia
Suméria e Babilônia, os padres da Igreja
buscavam empreender campanhas em favor de uma pureza ascética
e vilipêndio de tudo que tivesse relação
com o corpo. Um exemplo típico é o seguinte
alerta de Clemente de Alexandria: ‘A armadilha do
Demônio para os homens, especialmente para os jovens,
está no corpo’. Antes do início do
Século IV, muitos Cristãos já se
haviam recolhido em comunidades desérticas ou se
tornado eremitas. D. H. Lawrence, amargurado, escreveu
na sua última obra, Apocalipse: ‘O temor
Cristão da perspectiva pagã lesou a totalidade
da consciência do homem’. Emma Jung, em seu
estudo sobre a lenda do Graal, viu o Rei Pescador, dolorosamente
ferido na genitália, como a imagem da Sombra do
homem Cristão, do mesmo modo que Carl Jung viu
na emergência do estereótipo da feiticeira
medieval uma conseqüência direta da supressão
por parte da Igreja celibatária de tudo o que fosse
feminino, especialmente na bela civilização
provençal que a Igreja exterminou na brutal Cruzada
albigense.
Essa
guerra perseguiu e massacrou meio milhão de pessoas
da fé Cathar, um ramo do Cristianismo Gnóstico
que reverenciava as mulheres como iguais aos homens e
que se alastrou, a partir dos Balcãs, para a Itália
e Sul da França nos Séculos XI e XII. Seus
líderes carismáticos, les Bonhommes, converteram
muitos à sua fé. Ezra Pound acreditava que
o Catharismo ter-se-ia fundido com as sensuais cortes
provençais de Occitânia e seu palaciano culto
trovador de la Donna – a Dama – diversamente
do que difundia a propaganda da Igreja, que pintava o
Catharismo como apartado do mundo e maniqueísta,
uma pecha que sobrevive ainda hoje.
Madalena
na Provença
Não
foi por acaso que as lendas de Maria Madalena que chegaram
à Provença depois da queda de Jerusalém
também se tornaram populares na França dos
Séculos XI e XII. Graças ao entusiasmo de
Eleanor de Aquitânia pelas suntuosas cortes muçulmanas
que encontrou em Antioquia ainda na Segunda Cruzada, floresceu
na França uma rica cultura artística e musical
que assimilou e promoveu uma revitalização
Venusiana das velhas lendas matrifocais e romances da
mitologia Celta – Artur, Guinevere e Lancelot; Tristão
e Isolda. Um breve mas luminoso retorno da devoção
à Deusa ocorreu de forma dissimulada; não
somente sob a forma das heroínas Celtas e das damas
do trovador, mas também como as magníficas
madonas negras e vierges en majesté de Auvergne
– que alguns diziam que eram estátuas de
Ísis; e outros sugeriam que fosse Perséfone
durante sua estada na região dos mortos. Outra
vez percebemos a sombra (ou o lado feminino sagrado reprimido)
do Cristianismo emergindo nessas imagens que falam de
uma Deusa perdida.
O
povo da França medieval estava, assim, por toda
parte, receptivo a Maria Madalena e a tomou como sua,
utilizando seu nome para designar muitas de suas igrejas.
Madalena tem ricas associações lendárias
em Marselha e entorno. De acordo com conjunto das tradições
populares medievais, Maria Madalena, juntamente com Maria
Jacobé e Maria Salomé (mães dos dois
Jaimes do Evangelho), desembarcou (de sua frágil
barca) perto da Marselha romana, com Marta, Lázaro
e sua serva negra Sara (reverenciada até hoje como
a Madona Negra da România, possivelmente uma sobrevivente
na Europa da Deusa Kali-Sara). Judeus hostis expulsaram-nas
da Terra Santa de volta para o mar em um barquinho sem
leme que milagrosamente chegou a Provença.
Diz-se
que Madalena converteu muitos ao Cristianismo, na Marselha,
com sua pregação apaixonada. Teria ela pregado
nas velhas catacumbas próximas ao antigo porto
grego? Será que não foi ela própria
objeto de uma tradição misteriosa perdida
semelhante à de Perséfone? Segundo contam
lendas posteriores, ela se retirou para uma caverna sagrada
localizada no alto do maciço de Sainte-Baume, não
muito longe da cidade. E ali teria terminado sua vida
em oração. A caverna ainda é um local
sagrado, mas para nós hoje só é possível
tentar adivinhar quão longinqüamente no passado
pagão esse teria sido também um lugar de
poder.
As
relíquias de Maria acabaram por vir repousar na
basílica de St Maximin-Ste Baume (Bálsamo
Sagrado) e foram muito veneradas durante a Idade Média
– até que em Vézelay, Borgonha, a
rival Abadia de Santa Madalena reivindicou direitos sobre
seus restos! O culto a relíquias nessa época
prestou-se a todo tipo de fraude, uma vez que o povo crédulo
é sempre ávido por ‘sinais e milagres’
de seus santos preferidos.
Assim
como ocorre em relação a sua permanência
na França, existem especulações fascinantes
de que a Madalena teria sido uma iniciada em um dos antigos
cultos da Deusa, possivelmente aquele da Ísis egípcia.
Quando Jesus exorciza os sete demônios da Madalena
dos Evangelhos, algumas pessoas, como Lynn Picknett, vêem
nisso uma referência secreta ao ritual esotérico
de purificação dos sete chakras do corpo
energético. Pode também ser uma referência
aos ‘Sete Portais’ da descida de Innana, do
mito sumério, ao mundo subterrâneo.
O
Despertar para a Deusa
Eu
acredito que o encanto que Maria Madalena provoca em tantos
de nós hoje se deve ao fato de que ela é
uma figura complexa e plenamente humana, uma mulher do
mundo que viveu uma vida de ‘pecadora’, desfrutou
dos prazeres da riqueza e do sexo principalmente, e teve
uma relação com o homem mais fascinante
da literatura religiosa ocidental. Se é ou não
possível para nós conhecermos com precisão
histórica os pormenores de sua vida mais do que
conhecemos os detalhes da vida de Jesus é, no fim,
irrelevante; são as fantasias sobre Maria Madalena
e sua relação com Jesus que produzem profunda
impressão na consciência moderna, especialmente
na das mulheres.
Muitas
mulheres hoje, desiludidas e insatisfeitas com as Igrejas,
podem começar a admitir para si próprias
que, tanto espiritualmente quanto eroticamente, anseiam
por mais que a pureza da Virgem e a via crucis, apesar
dos séculos de propaganda nesse sentido, principalmente
por parte de teólogos do sexo masculino. Trazer
a figura de Maria Madalena para a vanguarda do debate
público permite que mulheres de toda parte –
e não poucos homens – sintam-se habilitados
a questionar sua fé sem medo do ridículo
ou da vergonha. Isso porque as mulheres, além de
desejarem ardentemente uma figura de carne e osso no cerne
de sua fé, elas também anseiam por um Jesus
de carne e osso que seja plenamente capaz de relacionar-se
com sensibilidade e paixão sexual. Um Jesus que
seja capaz não apenas de amaldiçoar os vendilhões,
passear pelas ruas empoeiradas da Galiléia ou ser
visto em bares cercado das prostitutas locais, mas um
Jesus que tenha uma amiga e parceira. E que parceira!
Digna, forte e orgulhosa; bonita, apaixonada e sábia.
A própria personificação de Sofia,
o principio divino que transcende até mesmo o Logos
de seu Mestre e consorte. Quando, mais tarde, ela se apresenta
e fala, populações são arrebatadas
por suas palavras, como ocorreu em Marselha. Mesmo o mais
brilhante dos discípulos do sexo masculino, segundo
nos diz o Evangelho de Felipe, silenciam perante sua doutrinação
apaixonada. Somente o teimoso e notório tolo Pedro
se ressente e finalmente rejeita o espantoso carisma de
Madalena.
Milhões
de pessoas foram recentemente estimuladas pelas idéias
de O Código Da Vinci, uma tendência que promete
crescer com a adaptação cinematográfica
de Ron Howard. Parece que nós, como cultura, estamos
suficientemente maduros neste momento para decifrar esse
momentoso enigma da ‘deusa perdida’. O fenômeno
do retorno de Madalena deve ser visto como o despertar
profundo na moderna consciência da idéia
de que Deus e sua encarnação humana e filho,
Jesus, não pode mais ser separado de sua contraparte
e parceira feminina. Deus Pai deve mais uma vez ser igualado
à Deusa Mãe; o Filho-amante encarnado deve
de novo ser igualado à Filha-amante encarnada.
Depois de ser suprimida, denegrida e perseguida por dois
mil anos, a Grande Deusa finalmente retorna em toda sua
beleza, sabedoria e glória – como Madalena
– e eu gosto de pensar que em suas mãos ela
carrega o Graal, que nos pode curar a todos.
__________________________________________________
Esther de Boer, Maria Madalena: Além do Mito [Trinity
Press, 1997]
Marina Warner, Alone of all Her Sex: the Myth and Cult
of the Virgin Mary [London, 1976]
Evangelho de Felipe, parte da Biblioteca de Nag Hammadi,
revisada por James R. Robinson [EJ Brill, 1988]
Susan Haskins, Maria Madalena: Mito e Metáfora.
[Harper Collins, 1993]
Lynn Picknett, Maria Madalena. [Constable and Robinson
Ltd, 2003]
Peter Mullan, As Irmãs de Madalena (filme) Miramax
2002
__________________________________________________
Roger Woolger, Ph.D., terapeuta Junguiano e professor,
criou a Terapia chamada Deep Memory Process (Processo
de Memória Profunda). Tem-se dedicado ao estudo
de religiões e misticismo e atualmente lidera excursões
de peregrinação a localidades de poder na
França, dedicando particular atenção
ao trabalho de apresentar às pessoas a civilização
da Provença medieval.
Woolger
Training - Escritório Inglaterra:
Briarwood, Long Wittenham, Oxon OX14
4QW
Tel/Fax: 00
44 1 865 407996
woolger.uk@talk21.com
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